O Natal do diabo
À meio caminho, pressentiu uma sombra a um braçinho de distância. Olhou repentinamente para o lado e viu um senhor alto de olhar meigo e feliz. — Olá meu jovem amiguinho. Está indo para a festa de Natal?— Sim. Como o Sr. sabe? — Eu sei de muita coisa. Sei por exemplo que dentro desse presente que você carrega, está um Tan.— É verdade. Que esperteza a sua seu moço! Como é seu nome mesmo? — Tenho vários nomes para cada ocasião. Hoje como é uma dessas ocasiões especiais, pode me chamar de Estumersun.— Que nome esquisito. O que significa?— Venerável da aurora é o que significa. — Para quê tanto nome? Não basta ter apenas um?— Sabe amiguinho, esse é um problema que carrego por muito, muito tempo. Não posso ter apenas um nome como todo mundo. Meu nome se alterna constantemente.— Por que? — Porque tudo se alterna constantemente: as pessoas, os sentimentos das pessoas, os animais, as marés, os dias, as noites, as árvores... e até mesmo você meu amiguinho, está fadado à essa inevitável alternância. E em cada mudança que ocorre eu mudo meu nome para tentar escapar das mudanças constantes, entende?— Não sei se entendi.— Por que disse que hoje é uma ocasião especial? Você também vai à festa?— Hou, hou, hou... é o que eu pretendo meu amiguinho. Mas não tenho um Tan para levar.— Vamos comigo. Eu tenho esse aqui. Assim poderemos entrar juntos. Eu digo que você é meu tio.— Amiguinho... é feio mentir. — Amigão, pior é só mentir... he, he...— Sabe amiguinho, você não precisaria levar um Tan. Você É um Tan.
O vento valsou com as folhas artisticamente enferrujadas envolvendo os dois caminhantes lado a lado.— O que você fez pra não ter um Tan? — Amiguinho, eu já tive um Tan. O mais glorioso que se possa imaginar. Seu brilho e poder são completamente desconhecidos de qualquer um neste nefasto. Não há referência possível que o torne compreensível. Quando tornei-me completo enamorei-me do fulgor e o fulgor abrasou-me com tal intensidade que uma explosão silenciosa ofereceu-me uma escolha. E escolhi. Minha escolha criou mundos; deflagrou astúcia; plantou a progenitora da felicidade humana: a ignorância. Ah, como me regozijo vendo a felicidade das pessoas cintilar como vaga-lumes emitindo atração luciferina tal qual cupinzeiros luminescentes. Diriam ao observá-los: “eis uma autêntica árvore de Natal”.
— Como irá fazer para ter de novo um Tan? — Não farei. Você fará.— Como?Estumersun estendeu-lhe a mão direita e disse-lhe: “Entregando-me”.— Mas você é meu convidado. E aos convidados toda as honras lhe são granjeadas. É um princípio guiador de tudo quanto existe e do universo inteiro. Pelo "tan" há verdade, e sabedoria, e harmonia e... — Não me fale assim!!! Eu sou o Venerável Celeste da Aurora! Sou o que antecede a luz matutina. Sem mim o mundo seria apenas um depósito de corpos putrefatos. — Está bem, está bem amigão. Tome aqui o Tan. Não quero vê-lo triste.Estumersun estendeu a mão ao encontro daquelas pequeninas mãos.O Tan lhe foi concedido. Estumersun parado olhava orgulhoso para o Tan sentindo-se com o máximo de poder que um inefável poderia sonhar.Mas o que Estumersun queria apoderar-se, dele apoderou-se.Suas roupas aumentaram de tamanho. Seu calçado tornou-se demasiado espaçoso. Sua voz perdeu o timbre dos controlados. E o que mais temia aconteceu. Estumersun agora era uma criança.
— Vamos amiguinho. A Festa nos espera. Leroy o pegou pela mão e às portas do salão, adentraram.Um vasto salão. Plenamente iluminado. O que mais impressionava era o seu minimalismo decorativo. Nunca havia pisado em um recinto tão magnificamente limpo.— Por que ele está vazio? — Perguntou a voz de Estumersun carregada de magia infantil.— Porque é no vazio que a plenitude se manifesta.
Assim, correram felizes para o centro do salão e uma luz intensa os consumiu.Não havia mais Estumersun, não havia mais Leroy. Apenas o único Natal.







