Domingo, Janeiro 06, 2008

O Natal do diabo

A festa prometia. Leroy decorou o caminho com a tranqüilidade de seus espertos 9 anos. Roupa nova e cheirando a perfume de gente grande. Seu pai não vai mesmo se importar apesar da bronca passageira quando descobrir. Afinal, foram apenas algumas gotas. Seu cabelo negro bem penteado ou melhor, bem despenteado segundo o ditame da moda.Na mão esquerda, o presente profissionalmente empacotado com laço artístico de cetim no tom azul profundo.O caminho escolhido foi o da vereda de ciprestes. E lá vai Leroy sozinho escoltado pela aura de inocência e pureza de intenção.
À meio caminho, pressentiu uma sombra a um braçinho de distância. Olhou repentinamente para o lado e viu um senhor alto de olhar meigo e feliz. — Olá meu jovem amiguinho. Está indo para a festa de Natal?— Sim. Como o Sr. sabe? — Eu sei de muita coisa. Sei por exemplo que dentro desse presente que você carrega, está um Tan.— É verdade. Que esperteza a sua seu moço! Como é seu nome mesmo? — Tenho vários nomes para cada ocasião. Hoje como é uma dessas ocasiões especiais, pode me chamar de Estumersun.— Que nome esquisito. O que significa?— Venerável da aurora é o que significa. — Para quê tanto nome? Não basta ter apenas um?— Sabe amiguinho, esse é um problema que carrego por muito, muito tempo. Não posso ter apenas um nome como todo mundo. Meu nome se alterna constantemente.— Por que? — Porque tudo se alterna constantemente: as pessoas, os sentimentos das pessoas, os animais, as marés, os dias, as noites, as árvores... e até mesmo você meu amiguinho, está fadado à essa inevitável alternância. E em cada mudança que ocorre eu mudo meu nome para tentar escapar das mudanças constantes, entende?— Não sei se entendi.— Por que disse que hoje é uma ocasião especial? Você também vai à festa?— Hou, hou, hou... é o que eu pretendo meu amiguinho. Mas não tenho um Tan para levar.— Vamos comigo. Eu tenho esse aqui. Assim poderemos entrar juntos. Eu digo que você é meu tio.— Amiguinho... é feio mentir. — Amigão, pior é só mentir... he, he...— Sabe amiguinho, você não precisaria levar um Tan. Você É um Tan.
O vento valsou com as folhas artisticamente enferrujadas envolvendo os dois caminhantes lado a lado.— O que você fez pra não ter um Tan? — Amiguinho, eu já tive um Tan. O mais glorioso que se possa imaginar. Seu brilho e poder são completamente desconhecidos de qualquer um neste nefasto. Não há referência possível que o torne compreensível. Quando tornei-me completo enamorei-me do fulgor e o fulgor abrasou-me com tal intensidade que uma explosão silenciosa ofereceu-me uma escolha. E escolhi. Minha escolha criou mundos; deflagrou astúcia; plantou a progenitora da felicidade humana: a ignorância. Ah, como me regozijo vendo a felicidade das pessoas cintilar como vaga-lumes emitindo atração luciferina tal qual cupinzeiros luminescentes. Diriam ao observá-los: “eis uma autêntica árvore de Natal”.
— Como irá fazer para ter de novo um Tan? — Não farei. Você fará.— Como?Estumersun estendeu-lhe a mão direita e disse-lhe: “Entregando-me”.— Mas você é meu convidado. E aos convidados toda as honras lhe são granjeadas. É um princípio guiador de tudo quanto existe e do universo inteiro. Pelo "tan" há verdade, e sabedoria, e harmonia e... — Não me fale assim!!! Eu sou o Venerável Celeste da Aurora! Sou o que antecede a luz matutina. Sem mim o mundo seria apenas um depósito de corpos putrefatos. — Está bem, está bem amigão. Tome aqui o Tan. Não quero vê-lo triste.Estumersun estendeu a mão ao encontro daquelas pequeninas mãos.O Tan lhe foi concedido. Estumersun parado olhava orgulhoso para o Tan sentindo-se com o máximo de poder que um inefável poderia sonhar.Mas o que Estumersun queria apoderar-se, dele apoderou-se.Suas roupas aumentaram de tamanho. Seu calçado tornou-se demasiado espaçoso. Sua voz perdeu o timbre dos controlados. E o que mais temia aconteceu. Estumersun agora era uma criança.
— Vamos amiguinho. A Festa nos espera. Leroy o pegou pela mão e às portas do salão, adentraram.Um vasto salão. Plenamente iluminado. O que mais impressionava era o seu minimalismo decorativo. Nunca havia pisado em um recinto tão magnificamente limpo.— Por que ele está vazio? — Perguntou a voz de Estumersun carregada de magia infantil.— Porque é no vazio que a plenitude se manifesta.
Assim, correram felizes para o centro do salão e uma luz intensa os consumiu.Não havia mais Estumersun, não havia mais Leroy. Apenas o único Natal.

Monstro ladino


Ando todos os dias pelo monstro ladino

Onde meus passos pressionam, seguem-me teus olhos

Todas as janelas abertas por dentro da vida

Recitada em portas envelhecidas por aberturas sem ambientes

Anestésica rotina esconde as dores da cirúrgica irrealidade

Esses olhos sem boca e sem brilho

Nada me dizem nas entrelinhas de néons

Apagados, descascados, findos como são findos os últimos raios dos dias

que passam e repassam sem nunca serem os mesmos
Sou refém dessas nuvens aturdidas esfomeadas nuvens


Que me passam e transpassam com esse requentado gosto branco

O monstro segue indiferente rente aos inúmeros passos

Compasso impassível sem apego, sem pegadas

Achei-me na esquina como quem nada acha
Angústia áspera arranha os céus do inerte monstro


De razão oca pelos sonhos silenciosos

Abre a boca e engole sentimentos cimentados

Por ruas e avenidas os pobres coitados formigam

Mal sabem medrados seus passos, pelo monstro foram pisoteados

Sábado, Agosto 04, 2007




A incumbência

Aos 7 anos, Daremon levantava-se às 6 horas, chamado por seu pai Estilianos, para uma caminhada matinal. Estilianos dizia a seu filho que era para saudar o sol nascente e receber os primeiros raios abundantes de energia. Isso ajudaria no seu desenvolvimento tanto físico como mental. Daremon a tudo ouvia com muita atenção. Tinha por seu pai uma profunda admiração, respeito e muito amor fartamente recíproco. Os dois amigos, depois de algumas frutas saboreadas, caminhavam por uma estrada de terra entre várzeas e plantações de milho e soja. Pássaros encarregavam-se de proporcionar a trilha sonora para a ocasião.

Daremon sabia que quando seu pai se aproximasse de uma formação rochosa que ficava a uns 100 metros da estrada, lá vinha uma conversa que muito lhe despertava o interesse.
Escolhendo o melhor e mais confortável lugar para o filho, Estiliano encostou-se a uma grande pedra como se fosse uma poltrona.
Um silêncio sem ecos, se instalou.
— “Filho, daqui há 14 anos, você terá um sonho. Nele se apresentarão 3 portas fechadas. Uma delas, você deverá abrir. Mas não será com as mãos. A forma como irá fazer isso, estará encerrado no lugar mais nobre dentro de você. Escolhas... é só o que temos de concreto. A conseqüência é o que o torna forte para continuar. Ou não”.

Após essas palavras, Estilianos levantou-se com a flexibilidade quase atlética que sempre procurou manter.

— Vamos Daremon, nossa caminhada mal começou.

Um céu sem palhetas para descrevê-lo, cintilava. Ao longe, as duas silhuetas caminhavam pela estrada de areia tão fina como os sentimentos. Vez e outra, Daremon arriscava um olhar de alegria para o pai ao seu lado.
Eram dois a caminhar. Mas eram muitos os caminhos a serem percorridos.

Estrelada a noite o sono veio. Um sono sem sonhos. Um mergulho no mais profundo do pequeno Daremon restaurou todas as suas energias. Descanso justo para quem terá pela frente os dias dos anos que se seguirão.

Um dia após completar 14 anos, Daremon foi convidado por seu pai a encontrá-lo na habitual formação rochosa onde lá um especial presente lhe aguardava.
Enquanto caminhava ansioso em rápidas passadas a esse encontro, na mente de Daremon desfilavam idéias fecundas sobre o quê seria esse “especial presente de aniversário” que o aguardava naquela tarde de verão.

A poucos metros das rochas, lá estava sentado seu pai, recostado à mesma pedra como sempre fazia. Um aceno recíproco acelerou os passos de Daremon. Um abraço que mais do que um abraço entre pai e filho, foi um abraço fraterno entre duas almas abertas.
— Este seu presente, meu filho, é mais do que um presente. É um testamento atemporal.
Sem entender muito bem essas misteriosas palavras do pai, Daremon assentiu pleno de confiança de que se tratava de algo de muito valor.
Estendendo-lhe uma caixa de madeira de 35 por 25cm de largura suficiente para acolher um livro, Estilianos olhou fixamente nos olhos de Daremon que tocando-a com as mãos sentiu-a retida pelas mãos firmes do pai enquanto este lhe dirigia as palavras: “ Você pode abrir a caixa mas prometa-me que o conteúdo somente após minha morte. Prometam-me isso. Resista a curiosidade.”
O jovem coração bateu num rápido descompasso diante do que ouviu. Se recompôs recolhendo as mãos com a caixa, lentamente. O pai lhe sorriu e disse jocosamente: “Não pense que vai se livrar de mim tão cedo.”
Um sorriso tímido relaxou o semblante de Daremon. “Vamos, abra” — disse-lhe o pai.
Abrindo a caixa, Daremon encontrou um livro. Era o que suspeitava. Na capa escura estava escrito “Palavras do Fogo”. Fixou os olhos no título por um pouco de eternidade.
Fechou-a num impulso. Olhou para o pai esperando o que viria a seguir.

Voltaram os olhos para o entardecer. Na silenciosa vermelhidão daquele momento, abraçados, desceram até o caminho que os levaria de volta ao lar.
No caminho Daremon não resistiu e perguntou: “Pai, abrir esse livro tem a ver com o sonho das três portas?” A essa pergunta, Estilianos apenas olhou bondosamente para o filho. Daremom entendeu.

O inverno se iniciou. Com ele um frio impiedoso gelou as noites na região.
Na casa onde Daremon morava, havia um recanto muito especial: era a biblioteca. Nela, Daremon gostava de ficar desde pequenino junto com seu pai. Uma sabedoria inata tornava-o silente à concentração da leitura de Estilianos. Imitava-o mesmo sem ainda saber ler uma única palavra.

Mas agora a biblioteca transformou-se num recinto de aconchego onde os dois travavam longas horas de apaixonadas conversas.
Em uma dessas frias noites, se encontraram na biblioteca e se puseram a conversar.
Daremon, já com seus 19 anos, bombardeava seu pai com temas filosóficos, desenvolto e muito à vontade.

— O que é, e o que não é real?
— Realidade só existe se existir uma consciência para interpretá-la — Disse-lhe Estilianos.
— Com a minha consciência posso dizer agora que percebo objetos variados à minha volta. Posso me levantar daqui e tocá-los. Assim, direi convictamente que são sólidos, reais — Afirmou Daremon.

— O que lhe dá essa convicção são os sentidos. E esses sentidos só são sencientes porque há descrição registrada de cada objeto, de cada elemento antes de você tocá-los.
Um conjunto quase infindável de descrições formam como que cubos, peças, um grande Lego. O que é feito é que lhe é ensinado a montar com esse Lego, objetos seguindo interpretações previamente organizadas.

— Mas quem as organizou o fez partindo de que ponto de referência?

— A referência foi a consciência da limitação. Esse é o único ponto de referência que temos. A consciência está enfeixada dentro de um círculo limitado pelo conhecido. O que ela faz é forçar a expansão desse círculo catalogando e renomeando as várias interpretações, os vários Legos, diante do desconhecido, tentando dessa forma tornar o que é desconhecido um agregado ao seu limite. É a Ilusão uma falsa alusão à possibilidade de que através dos sentidos “construímos” a realidade. Esse desconhecido passível de tornar-se “conhecido,” é o velho jogo de remontagem possibilitado pelo Lego de nossos sentidos. Mas há uma possibilidade de “salto quântico” dessa limitação. E não é com os sentidos que isso será possível.
Nesse momento Estilianos parou como quem está aguardando uma manifestação de interesse do filho pela continuidade da conversa.

— E onde se encontra essa possibilidade? — Indaga Daremon sem titubear.

— O local onde se pode encontrar não difere muito do princípio da “caça ao tesouro”. Isso mesmo. Aquela brincadeira tão conhecida na nossa infância. Alguém escondia algum chocolate, pacote de balas ou outra qualquer guloseima e lá íamos nós ávidos e cheios do espírito de aventura pura no encalço do tão valoroso prêmio. Isso nos enchia...
— Pai, pai... desculpe interrompê-lo mas me parece uma referência tão simplória para explicar algo tão grandioso, enigmático como essa metáfora do “salto quântico”.

Estilianos, compreendendo o natural frescor do ímpeto da juventude, pausadamente esticou o braço para apanhar mais um pouco de chá do bule irlandês que havia recebido de sua amada Beatriz, mãe de Daremon, pouco antes de sua morte prematura. Após o gesto, deteve-se a observar o bule por alguns segundos virando-se em seguida para Daremon que captando a aura significativa do momento, baixou a cabeça respeitosamente num impulso reflexivo.
— Dê uma olhada aqui na base do bule, Daremon.

Daremon se aproxima do ponto indicado por seu pai e pergunta do que se trata.
— Olhe atentamente, Daremon. Procure observar com toda sua atenção e me descreva o que observa.
— O que vejo são esses detalhes finamente trabalhados formando arabescos clássicos. Me parecem simétricos galhos de uma planta. Sim, é de uma planta. É de uma roseira. Um exímio trabalho de artista, certamente.
— Você consegue perceber o que há próximo à rosa na ponta do galho?
O bule já então havia perdido a quentura máxima devido à baixa temperatura ambiente, o que permitiu a Daremon pegá-lo confortavelmente com as duas mãos e contorná-lo com atento olhar.
— Nossa! Isso aqui me parece um dragão expelindo fogo. Incrível! Como alguém pode esculpir tão minúscula figura nesse metal? E com tamanha riqueza de detalhes. Estou impressionado. E nossa! Ainda tem aqui o que me parece uma casa no alto de uma arborizada montanha! É realmente fantástico! O que é impressionante pai, são essas riquezas de detalhes tão minuciosamente trabalhadas. Quem é o autor desse magnífico trabalho de arte em proporções tão microscópicas?

Estilianos se recosta na poltrona e solta uma gostosa risada espontânea e dirige o olhar cheio de um brilho que parecia indicar o quanto estava repleto de uma energia contagiante.
— Daremon meu amado filho. Esse é o tesouro.
— Como assim pai? Não entendi. Isso tem ligação com o quê estávamos conversando sobre a metáfora?
— Pare um pouco e deixe-se pensar.
Daremon seguiu a indicação do pai e silenciou-se por alguns instantes.
— Você quer dizer que observar atentamente detalhes tão microscópicos, passados despercebidos, nos conduzem a esse salto de consciência? Seria isso?
— Pense mais um pouco, sem pressionar-se.

— Já sei. O autor. Quem é o autor de tamanha proeza criativa é o ponto chave.
Nesse instante o brilho nos olhos de Estilianos pareceu saltar em chispas por todo ambiente.
— Sim é isso! Exatamente isso. Não se sabe a autoria de uma obra tão rica. Você se desprendeu por algum momento viajando nos detalhes esculpidos e se esqueceu completamente de pensar na autoria. O que importa? Se você viesse a conhecer o autor dessa obra, faria alguma diferença no que você acabou de sentir? Você poderia até se decepcionar com sua aparência e personalidade. E se fosse alguém em andrajos e mal cheiroso? No entanto isso não alteraria a essência do que você percebeu. O que tem o poder de alterar essa essência é a sua atenção. Esse é o princípio do salto quântico: não há como se conhecer o autor da obra criada. Somente a atenção é passível de ser conhecida. E a atenção conduz à intenção. O ser humano passa o tempo de sua vida sofisticando metodologias para definir, para catalogar, organizar, brincar com seu Lego perceptivo com o intento de conhecer o autor daquilo que ele não pode explicar. E como não se pode encontrar explicação, criam-se conceitos que depois serão substituídos por outros conceitos e assim sucessivamente. Há algo que o homem nunca irá conhecer. E esse algo é o Autor. Por isso o que lhe resta é tão somente “saltar“ os degraus de sua atenção.

Estilianos parou de falar. Sentiu que era hora de interromper a conversa. Daremon ao se notar, percebeu que estava encurvado, sentado em cima de uma grande almofada no chão bem próximo a seu pai. Já se passava da 1h da madrugada. O tempo havia concedido um pequeno vácuo de eternidade naquele ambiente tão aconchegante e tão aquecido pela interação dos “dois amigos”.

Estilianos levantou-se dizendo a seu filho que subiria até o banheiro para preparar-se para dormir e que Daremon deveria fazer o mesmo. Afagou-lhe o cabelo e subiu.

Daremon continuou ali sentado ainda mergulhado em tudo aquilo que seu pai lhe havia dito. Um carroussel de idéias girava em sua cabeça quando foi interrompido por um barulho seco e pesado vindo lá de cima.



Correu apressadamente. Pulando de três em três degraus, subiu a escada chamando por seu pai. A porta entreaberta do banheiro mostrava Estilianos deitado no chão com os olhos arregalados. Um grito carregado e ofegante de Daremon preenche a casa. Corre até o móvel ao lado da cama do pai onde ficavam os remédios para o coração. Mãos trêmulas e cegas, procuravam desesperadamente. Ao encontrar, volta correndo para o pai.

O tempo, senhor absoluto de todos os momentos, congelou o corpo de Estilianos, ali, no chão do banheiro. Daremon corre ao telefone para chamar a ambulância. Volta para o corpo do pai e se agacha para abraçá-lo. Um turbilhão de imagens das inúmeras vivências juntos, desfilam como um filme em câmera rápida por sua mente. Põe-se a observar atentamente o rosto daquele que foi quem forjou sua alma para ser como um aço forte. Não via mais um rosto e sim um semblante com linhas suaves. O que impressionava eram os olhos muito abertos. Sentiu que deveria fechá-los lentamente. Ao fazê-lo algo lhe chamou a atenção. Os olhos de Estilianos possuíam um brilho estranho. Ao se aproximar percebeu que o brilho era um reflexo. Uma onda gelada percorreu todo seu corpo arrepiando-o e deixando-o estático por alguns segundos. Na íris de Estilianos estava gravada uma imagem que lhe era muito familiar: o bule de chá! Como uma foto retida por um instantâneo, a imagem do bule era perfeita apesar do tamanho. De súbito uma idéia mórbida passou pela mente de Daremon. Lembrou do que seu pai lhe havia dito em certa ocasião durante suas longas conversas: “Diante do inesperado fantástico, haja com a naturalidade do espírito de uma criança pura e destemida”.

Correu até seu quarto e pegou sua câmera de alta resolução. Colocou a lente de captação microscópica, respirou fundo, e tirou uma seqüência de fotos da íris de seu pai antes que a ambulância chegasse.

6 meses haviam se passados da morte de seu pai. Daremon, agora com 20 anos, morava sozinho, Recusou educadamente reiterados convites de familiares para morar com eles. Estlianos o havia instruído para sobreviver muito bem consigo mesmo caso houvesse necessidade. Algo que sempre ouviu de seu pai foi sobre a importância de conquistar autonomia de vida. “Nunca dependa diretamente de ninguém, meu filho. Isso tira a sua força moral. E força moral é muito mais do que simplesmente moral. É o que constrói escadas na progressão de uma consciência. Indiretamente sempre dependeremos de alguém e alguém dependerá de nós. Um dia você precisará da ajuda de alguém da mesma forma que alguém precisará da sua. Essa interdependência faz parte de um processo natural. Mas saber qual direção tomar não pode ser determinado por uma “autoridade externa”. A autoridade está dentro de você”.

Navegando por essas reflexões, Daremon pensou em retomar a observação da foto que tirara da íris de Estilianos. Desde o triste episódio, não havia tido ânimo para estudar aquele incrível fato: os olhos de seu pai haviam “fotografado” um objeto como última imagem antes de expirar. ”Por que aquele bule?” — se perguntava Daremon.

Ampliou o máximo que pôde a foto que tirara para observar bem os detalhes. Um senso investigativo lhe retoma o espírito. Olhou... olhou bem cada detalhe do bule e... algo lhe chamou a atenção. Notou que próximo àquela imagem do dragão haviam 3 traços verticais lado a lado. De repente um sobressalto! Um estalo em seu abdômem sincronizou com uma claridade mental: eram as 3 portas que seu pai lhe havia dito que surgiriam em sonho após completar 21 anos! Faltavam apenas 2 meses para seu aniversário.
(continua)




Terça-feira, Julho 17, 2007


O mundo tem o tamanho da minha visão.



Quando criança meu quintal era uma cidadela inexpugnável.Organizei batalhas que duraram séculos nas poucas horas que minha imaginação elástica, teve a permissão da criatividade para superá-la. Não houve mortos nem feridos. Apenas a dádiva da imortalidade em manhãs ensolaradas no pátio de minha casa, ou do meu vasto reino. O céu podia esperar sem pressa. Concedi glórias, aniquilei a soberba de invasores, desfrutei de conquistas, eternizei epopéias.

Hoje o mundo é pequeno. Muito pequeno. Não é mais um quintal.Tem o tamanho do meu quarto. Nesse quarto cabe a Europa, a Ásia, a África... todo longínquo espaço imaginável e inimaginável. Percorri os quatro cantos do mundo... e o meu quarto sempre esteve comigo; dimensionando meus sonhos, fortificando serenamente meus rituais de passagem para a realidade.Como o mundo é pequeno demais! Por mais que eu caminhe, as distâncias se encurtam, o tempo se esvai como neve ao sol.

Não sou pródigo. Apenas um filho que cansou de rejeitar a comida dos porcos e quer voltar pra casa mesmo que descalço. Meu apetite é cronofágico. Consumo a mim mesmo segundo a segundo. Ainda a pouco... ainda é pouco, ainda é tic... ainda é tac.As trilhas causam sulcos profundos na consciência. Trêmulas lembranças são gelatinas servidas em potes de aço. No regaço, no fundo da floresta que há em mim, ainda me resta uma ante-sala guardada a sete chaves; chaves essas perdidas por debaixo de alguma distraída saudade.

Como é minúsculo esse mundo! Como é maiúsculo o mistério que o interpenetra. Abraçá-lo é tarefa para gigantes. Rondas e rondas solares passam sem feriado cósmico. Sem descanso a roda gira e eu a observo sem ser seu servo.Olho para o campo de batalha que ficou para trás e meus olhos pesam como chumbo.O chumbo do sono; do sono que me faz sonhar; do sonho que me torna lúcido ao despertar.

Domingo, Junho 24, 2007


Tampa do frasco


Um frasco guarda perfume d´alma
Aspiro um éter oco
Como um louco na calma dos odores
a falar com tuas flores
enquanto dormitas em tua pétala macia
Quem diria
É o bem que me fez querer
essa tua lágrima a escorrer
pelos poros que tanto adoro
à tampa do frasco me faz ceder


Leandro Soriano

Sexta-feira, Junho 22, 2007


O Filho do Brasil



As 24 horas do dia lhe eram totalmente estranhas. Não era muito nem era pouco. Apenas insuficiente por conta do excesso de sonhos. Lá pelas tantas acordava. Pra lá depois de tantas, dormia para esquecer o que lhe deprimia. Seu pai, seu Brasil, era um homenzarrão; um gigante pela própria natureza que Deus lhe havia emprestado para lhe tomar de volta na hora incerta. Seu Brasil era assim um tipo que os psicólogos logo o rotulariam de dicotômico. Oscilava entre o passado naftalínico e o futuro aguardente... dentes lhe eram arejados e os olhos marejados do suor que vinha da alma indigente prescreviam-lhe invisíveis remédios que somente ele conseguiria ingerir.

A parte do corpo que mais utilizava era o cotovelo — e com que desvelo... Com ele seu Brasil perdia a vida e ganhava a morte. Não era um cotovelo qualquer. Não, não senhor. Era um cotovelo de última geração. Todo calejado com o mais resistente efeito de dormência que um cotovelo poderia ter. Os balcões da vida que o digam. Quantos deles se entregaram resignadamente diante desse peso constituído de carne ressecada e ossos porosos a lhes pressionarem a lisa e empossada superfície etílica.

Mas seu Brasil tinha a persistência da desistência. Com a mesma facilidade com que se inflamava na tola e passageira alegria, queimava-se na malandragem feita por tanta mal disfarçada tristeza. Ninguém duvida da capacidade e dos talentos ocultos que habitam o seu Brasil. Quando bem intencionado, dele poderia se extrair muitas insuspeitas riquezas. Seu Brasil mal sabe que carrega em si o destino que tanto pensa saber. Seu Brasil é o pai do futuro de seu filho gerado por uma impaciência atrevida tão devida mais por alienação incultivada do que por uma ignorância herdada.Ah seu Brasil... o tempo acaba só quando termina. E mina aos poucos o pouco que ainda resta do nada que se pensou ter.Filhos de homens como seu Brasil, são gentis com o próprio solo onde pisam por respeito ao calejado que a vida lhes impõe.

Um dia seu Brasil vai morrer. E com ele sua curta memória de uma vida tão curta de importância, que vai ficar na lembrança apenas mais um capítulo da novela que deixou de ver.Ouvir-se-á lá ao longe num Ipiranga imaginário, que o filho daquele otário, o amou com tanta intensidade que na verdade somente o silêncio do mundo o abraçou com o penhor de uma igualdade que nem a mais próspera sociedade um dia já sonhou.E se ao restar só e filho, o que anda carregando o próprio corpo abandonado, lá vai o bravo soldado à luta fingida igual a intenção de um germicida que longe do povão, aperfeiçoa para seu intento, da alma dos coitados, o seu quinhão.

O que se sabe de tudo isso é apenas a questão: alguém salve seu Brasil. Sua saúde pode matá-lo.
Leandro Soriano
e conheça a obra desse fotógrafo que inspirou esse texto.

Sexta-feira, Junho 08, 2007


O ovo



Uma criança de seus 5 anos, nascida na boa sorte de uma família economicamente mediana, vive feliz no seu mundo feito de brincadeiras e gulousemas. Dorme profundamente a sonhar ansiosa pelo dia de amanhã que, para ela, nunca acabará. Durante o sono, uma voz de timbre amigável, diz-lhe: “Que bom o mundo ser assim não é mesmo? Você dorme, acorda, come o que gosta e depois vai brincar até se cansar. Porque então não continuar dessa forma para sempre?”

A criança acorda com a seguinte idéia na cabeça: “isso mesmo, não vou deixar de ser criança nunca! Ficarei para sempre nessa fase. Não serei um adolescente como meu irmão.”

O tempo passa e chega inevitavelmente a adolescência para essa criança. Uma revolta tida como sem causa pela crítica exterior, o torna inquieto com o mundo e consigo mesmo. E o adolescente lembrando-se da voz que, na sua infância, lhe falou no sonho, decide: “dessa vez não me pegarão; vou manter-me adolescente e ninguém irá alterar isso!”

Mas o tempo, como que dando de ombros à efemeridade dos queixumes humanos, esvazia toda essa utópica pretensão adolescente e remete-lhe direto para a fase pré-adulta, sua juventude.Nessa fase, aquela criança sentindo-se como que sufocada por inúmeras responsabilidades, encolhe-se no seu interior e de lá emite um S.O.S.: “finque sua bandeira da vitalidade e energia, não saia dessa fase!”

Frio como um mármore, lá se vai o tempo indiferente aos ideais da juventude. E com ele a própria juventude. Chega a “idade madura”. Ou, mais dura?Agora o seu diálogo interno diz: “como sei o que é a vida, dosarei todos os meus passos; só irei na boa e assim me manterei, até darei orientações para os imaturos.”

Imponderável como o amanhã, o tempo empurra o “tolo filósofo” para a velhice.Sem ter opção, acorda de madrugada a procura daquela voz que o acompanhou desde criança. A voz emudeceu. Em seu lugar surge um ovo. Um ovo? Sim, um ovo. O tamanho é de dimensões imprecisas. Se quiser vê-lo pequeno, pequeno ele será. Se quiser quase desaparecer próximo a ele, gigante ele se tornará. Não é magia, não é feitiço, não é sobrenatural: é um... ovo.

Ele tem casca. Não uma casca dura. Mas se quiser que seja dura ela o será. A cor da casca é o mistério maior: é incolor; ou melhor: é transparente.

O que tem dentro do ovo? Forçando a visão para além da casca, o moribundo olha fracamente e o que vê o emudece; seca sua garganta; paralisa seus membros. Porque ele vê exatamente o que quer ver. E o que vê o amedronta. Pois o que o amedronta está pronto para sair da casca. Está pronto para nascer.

Ele fecha os olhos. Não quer ver mais um nascimento.

Absorvido em total inconsciência, encolhe-se; dissolve-se.

Um primeiro olhar, um primeiro pensamento reconhecido como tal, diz: “como faço para dormir? Basta fechar os olhos?”

E a criança começa seu aprendizado.

Segunda-feira, Junho 04, 2007

O anjo podre


Surgiu do nada, como quem nada quer. Vestes de caráter cortado em fatias desiguais. Memória balbuciante sem nítida definição de vivências. Dormia onde o sono lhe concedia apertado recanto. Acordava onde as sombras se retiravam ao aperto solar no rosto. Deuses da vingança requintada administravam seus humores. E os dias na megalópolis triturava-lhe as esperanças com a força de uma rotina. Qualificação oscilava entre mendigo e amnésico de fino trato. Esquecia o que era se alimentar até que o vômito das entranhas vazia, lhe facilitava o arremedo de autoconsciência.

A todos dizia ser um anjo e se punha a tocar sua flauta doce de onde melodias cabalísticas roçavam a vã sensibilidade da platéia que se dignava ouvi-lo.
Ninguém dele se aproximava. Uns tomados pela náusea provocada pela cultura da imortalidade de festim; outros pelo odor fétido que a pureza de sua insanidade como embalagem, lhe era conferida.

Tinha uma cândida atração por crianças. As quais disparavam troças em sua direção e em uníssono gritavam: “olha o anjo podre... olha o anjo podre”. E o impregnado de compaixão sorria clamando com os olhos, um brilho de ingênua sinceridade.

Entre tantas das muitas excentricidades, gostava de andar na chuva com sua inseparável flauta companheira executando melodias estranhamente alegres.
Certa ocasião, no solstício de inverno, foi visto sentado de pernas cruzadas num campo todo coberto de geada olhando para o bosque da periferia.
O bosque — todo ele composto de muitas árvores de cedro (uma raridade cultivada pela colônia libanesa) — oferecia uma possibilidade de efeitos cromáticos, de uma beleza insuperável nessa época do ano. Mas para os efêmeros passageiros desse barco tão volátil chamado vida, isso passava despercebido na maioria das vezes. Quem mais costumava prestar atenção ao fenômeno eram os mendigos e desocupados que perambulavam enregelados a procura de madeira para se aquecerem. Não que estivessem precisamente atentos ao espetáculo que somente aos de coração purgado até a última câmara era desvelado, mas porque o efeito trazia a descoberto galhos retorcidos, sobras e lascas de madeira aproveitáveis como ígneos cobertores.

Exatamente no dia 21 de dezembro postou-se diante do bosque, calmo, com os olhos fitos muito além dos cedros. Nesse dia não tocou na flauta. Era como se o momento que mais aguardava lhe fosse trazer a realização plena de suas mais íntimas esperanças; talvez um portal se abrisse e uma carruagem de luz aguardaria apenas que subisse e assumisse as rédeas de seu destino de fogo; ou, que os cedros ganhassem vida e de árvores passassem instantaneamente a condição de gênios alados prontos para alçarem vôo ao seu comando. Quem naquele instante olhasse para seu rosto, veria um semblante ardendo em vermelhidão resplandecente, lívido; seu olhar agora eram dois horizontes silenciosos; seu coração pulsava ao ritmo de uma tarantela mística si-len-cio-sa-men-te.

Começa o espetáculo. Labaredas lilás-alaranjadas iniciam os primeiros movimentos de um opus que para o “anjo podre” era uma sinfonia sem fim. Fachos prata-azulado faiscavam por entre os galhos finos; uma bola dourada avançava por entre as árvores e crescia a medida que avançava. Exultava e aos pulos gritava: “leva-me, leva-me Pai do fogo... leva-me para casa!”.
Toda essa manifestação atraiu a atenção de inúmeros mendigos da redondeza. Vários se aproximaram. Afinal para quem passa os dias sem nenhuma alteração da mísera rotina, aquele maluco, aquele “anjo podre” mal cheiroso, servia-lhes como um pequeno espetáculo estimulante.
Próximo dali vizinhos abastados em suas mansões fortificadas, incomodados pela pantomima de mais um Zé nada, chamaram a polícia.

De certa distância, os policiais, viram uma pequena multidão de esfarrapados formando um semi-círculo.
Ao chegarem cautelosamente, seus olhos não acreditavam no que viam. Nunca em suas vidas tão miseráveis haviam vivenciado algo tão inusitado.
Todos os mendigos tiravam suas roupas, peça por peça e as jogavam na grama geada que aos poucos avançava para revestir todo o campo e o bosque com sua tonalidade solidão.
A cada passo dado, os policiais sentiam um estranho aquecimento gradativo. Próximo aos mendigos o calor era tanto que tirar a roupa tornava-se um impulso irresistível. E foi o que os policiais fizeram juntando-se aos mendigos desnudos.

Em meio ao pra lá de maravilhoso efeito cromático por entre as copas dos cedros, a vizinhança empolada e indignada com a falta de atitude dos policiais, decidida, se aproximou daquela roda de gente com estranha atitude.
A mesma reação de todos que ali estavam presentes, tomou conta do grupo. O calor aumentava e cachecóis, mantas importadas, chales e bonés eram atirados ao solo por efeito de um calor anormal que a todos afetava.

De costas para todos, sentado em cima de um largo tronco decepado de cedro com pouco menos de um metro de espessura, estava sentado de pernas cruzadas tal qual um yogue, o anjo podre. Totalmente nu, olhava para as próprias mãos. O silêncio absoluto fazia eco aos ouvidos abstraídos dos presentes àquela cena jamais imaginada.

Aos poucos, ruídos de estalos esparsos aumentava de volume a medida que também aumentava o calor. Um raio preciso de 50 metros isolou a área da neve e do frio.
A essa altura os cedros abrasavam-se e abrangente vermelhidão tomou conta de tudo que havia por perto.
Um odor de madeira queimada passando para algo parecido com carne em putrefação, dominava o ar em torno de algumas pessoas. Outras mantinham-se impassíveis. O número das que sentiam náuseas com o odor cada vez mais fétido, aumentava. Começaram a vomitar e seus corpos imediatamente entraram em convulsão. Gritavam alucinados que era o cheiro de podridão daquele “anjo” sujo. Saíram correndo atropelando uns aos outros. O frio abraçou novamente seus corpos expostos a suas estúpidas percepções físicas. Correram trêmulos em ziguezague a procura de abrigo para o frio. Apenas sete restaram daquela turba. Sete e mais nenhum. Mantinham-se ali imóveis, abstraídos, aquecidos, alimentados por um calor protéico.

O que para os outros ardia em suas narinas como fétido, para esses sete elevou seus olfatos a um sândalo orgônico.
De súbito os sete notaram o anjo podre elevar-se em chamas. Labaredas consumiam sua carne; seu corpo desmanchava-se como cera quente até restar somente uma poça escura aquosa.

Não havia mais anjo podre. No seu lugar surge uma bola de luz crescente. Cresceu e cegou aos sete assustados desnudos: 3 mendigos, 3 policiais e 1 abastado.
A cegueira os levou a perda da consciência; a inconsciência os levou a despertar em meio a um comício político onde um empertigado candidato bradava seu projeto social para acabar com mendigos.
Olharam-se e sorriram em silêncio.O frio avançava implacável. Não havia o que temer e nem tremer. Havia uma flauta; havia o bosque.

Leandro Soriano